Testes levam futuros pais a rejeitar embriões imperfeitos
Amy Harmon, “The New York Times”


Testes levam futuros pais a rejeitar embriões imperfeitos


Nos EUA, cada vez mais se geram filhos que jamais terão certas doenças

Amy Harmon escreve para o “The New York Times”:

Chad Kingsbury sabe que sua filha de 2 anos, Chloe, nunca ficará doente. Pelo menos não do câncer de intestino que já matou quatro pessoas de sua família e que ele também poderá enfrentar por causa da mutação genética que o torna suscetível à doença.

Submetendo Chloe a um teste genético quando ainda era um embrião no laboratório, Kingsbury e sua mulher souberam que ela não tinha o gene defeituoso.

Por isso, foi escolhida entre outros embriões que o casal havia concebido por fertilização in vitro.

Há mais de uma década que futuros pais vêm lançando mão desse procedimento, o diagnóstico genético pré-implantação, para fazer uma triagem que localize genes causadores de doenças.

O ônus de fazer o papel de Deus foi suplantado pela quase certeza de que doenças como fibrose cística e anemia falciforme afligirão os filhos que carregarem consigo a mutação genética que as provoca.

Casais como os Kingsbury enfrentam uma reflexão sobre valores mais complexa.

Precisam ponderar se seu desejo de impedir o sofrimento de um câncer cuja ocorrência não é certa justifica a seleção consciente de um embrião e a rejeição daqueles que trazem o gene defeituoso.

E o teste não é totalmente eficaz. Há 3% de chance de que o diagnóstico falhe.

Se o crescente interesse em fazer uma triagem para detectar a presença de risco de câncer indica tolerância maior à seleção genética, especialistas dizem que isso pode gerar maior uso do diagnóstico para procurar características que variam de doenças menos graves a questões de preferência.

Já é possível testar os embriões para verificar se têm uma forma herdada de surdez ou para detectar uma predisposição para a artrite ou a obesidade.

À medida que os cientistas aprendem mais sobre a base genética das características herdadas e as pessoas sabem mais sobre a composição genética, a expectativa é que só aumentem o cardápio de triagem do embrião e sua série de dilemas éticos.

“Do ponto de vista tecnológico, podemos testar qualquer coisa”, diz Mark Hughes, do Genesis Genetics Institute, em Detroit.

O processo é difícil e caro. O diagnóstico genético antes da implantação, que requer fertilização in vitro, pode custar dezenas de milhares de dólares.

Rico sadio, pobre doente

Críticos temem que a posse de recursos financeiros possa converter o diagnóstico numa divisão por classe genética na qual os ricos se tornarão mais geneticamente saudáveis que os pobres.

Sabendo que o teste de Chad Kingsbury para detectar a mutação do câncer tinha dado positivo, a família começou pelas leis básicas da genética - como as crianças herdam metade dos genes de cada um dos pais, ele tinha 50% de possibilidade de transmitir os genes.

Uma vez que a mutação eleva o risco de câncer em 20 vezes, uma criança concebida da forma tradicional teria a possibilidade de 1 em 3 de ter o câncer.

Os pais de Chloe levaram dois meses para tomar a decisão. “Eu não conseguiria imaginar os médicos dizendo que minha filha tem câncer, quando eu poderia ter evitado isso”, afirmou Kingsbury.

Hoje, são poucos os países que permitem a seleção genética de embriões para fins terapêuticos, entre eles os EUA, Espanha, Bélgica, Austrália e Reino Unido.

Em alguns deles, ainda assim, há restrições.
(O Estado de SP, 17/9)

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